Como calcular e controlar o capital de giro de uma startup

O capital de giro de uma startup é um dos pilares de seu funcionamento, pois os recursos que o compõem asseguram a continuidade das atividades e a possibilidade de escalar e crescer. E essa importância aumenta em momentos nos quais não há recebíveis previstos, quando o capital tem de suportar a estrutura de custos sem que mais dinheiro entre nas disponibilidades para incrementá-lo.

Portanto, é fundamental para os empreendedores entenderem seu cálculo e saberem se os recursos são suficientes ou se é necessário tomar alguma medida para não haver falta. E ainda mais essencial é administrá-lo adequadamente, para que a saúde financeira do negócio não seja prejudicada.

Então, acompanhe-nos e entenda agora como calcular o capital e veja ainda seis práticas para a boa administração dele.

Calculando os recursos

Para calcular o capital de giro deve-se utilizar as informações contábeis de ativo e passivo circulantes do período, não apenas o faturamento e os elementos da estrutura de custos.

O ativo circulante refere-se aos direitos para o curto prazo. Por exemplo, as contas a receber e as disponibilidades — valores em caixa e contas bancárias. E trata-se também do que não será recebido, mas pode ser convertido em dinheiro rapidamente, como aplicações financeiras mantidas e estoque, se o modelo de negócio exigi-lo.

Já o passivo circulante diz respeito às obrigações  também para o curto prazo, como folha de pagamentos, contas de fornecedores e impostos.

Depois da soma de ambos os totais, basta subtrair o passivo circulante do volume dos ativos circulantes. Então, se tem o capital líquido.

Veja um exemplo:

  • Caixa: R$ 6.500;
  • Conta bancária A: R$ 16.800;
  • Conta bancária B: R$ 9.400;
  • Contas a receber dentro do mês: R$ 13.900.

Após a soma, o ativo circulante para o período é R$ 46.600.

  • Salários a pagar: R$ 11.220;
  • Encargos, impostos e contribuições do mês: R$ 6.150;
  • Contas a pagar a fornecedores: R$ 13.200;
  • Total do passivo circulante: R$ 30.570.

Por fim, subtraindo o segundo resultado do primeiro, o capital líquido para o mês é R$ 16.030.

Dependendo do modelo de negócio da startup e do seu mercado de atuação, um resultado de R$ 16.030 em um mês dentro dos primeiros anos de atividade pode ser algo realmente acima da média.

Logo, mantendo a estrutura de custos e de pessoal enxuta, se vê um indicativo de que é possível escalar o negócio com certa rapidez e aplicando parte dos lucros frequentemente para isso, sem necessidade de terceiros como investidores ou credores de capital.

Ou seja, esse cálculo também ajuda os responsáveis a medirem o desempenho da startup e seu potencial de gerar resultados.

Administrando o capital de giro

No exemplo acima, a empresa teve um bom resultado bruto de recursos próprios e também um capital líquido adequado. Porém, mesmo nesse cenário positivo a boa administração é vital para a manutenção das atividades e das finanças, pois a má gestão pode mudar a realidade e deixar o negócio em situação complicada.

Conheça seis ações para uma boa administração dos recursos.

Investir as sobras interna ou externamente

Citando novamente o nosso exemplo de cálculo, as disponibilidades contavam com boas sobras e possivelmente excessos. Então, esses valores que continuassem parados nas contas, sendo realmente excessivos, iriam desvalorizar continuamente pela inflação.

Portanto, sempre que ocorrer de sobrar dinheiro nas disponibilidades depois de o cálculo revelar bom capital líquido, esses recursos devem ser investidos dentro ou fora da empresa.

O investimento interno é aquele que você conhece: melhorias em produtos e serviços, investimento na aquisição de clientes etc. Já para investimentos externos pode-se escolher aplicações financeiras seguras e simples de operar, como as de renda fixa. Assim, os valores ficam depositados e ao mesmo tempo rendem juros acima da inflação.

Adiantar recebíveis

O ideal é sempre fechar negócios com recebimento à vista, forma de pagamento que pode ser influenciada pela concessão de descontos. Porém, mesmo assim, nem sempre é possível receber todo o valor de uma venda ou prestação imediatamente.

Então, ao conceder prazos aos clientes ou fazer cobranças recorrentes, pode-se tentar adiantar esses recebimentos em duas semanas ou alguns dias concedendo descontos menores para quitações antecipadas.

Por exemplo, oferecer entre 3% e 5% de abatimento para o pagamento adiantado de um boleto pode fazer o cliente quitá-lo dez dias antes do vencimento.

A prática pode gerar aumento do saldo positivo do fluxo de caixa em cada mês. E ainda contribui para reduzir a inadimplência — influenciando os clientes a serem bons pagadores.

Negociar com fornecedores e parceiros

As mesmas ações direcionadas aos clientes servem também para os fornecedores.  O objetivo aqui é gastar menos dinheiro, deixando mais saldo disponível no fluxo de caixa.

No entanto, fazer pagamentos à vista pode exigir uma quantia maior de recursos utilizados de uma só vez. Por outro lado, fechar negócios assim também pode render bons descontos — além do fato de eliminar dívidas que seriam feitas para os próximos meses.

Caso as aquisições precisem ser feitas em prestações, é possível negociar parcelas que totalizem o mesmo valor que seria pago à vista, ou ainda quitá-las antecipadamente para aproveitar abatimentos se isso for oferecido.

De qualquer forma, sempre se pode agir para reduzir — ainda que minimamente — as saídas do caixa em cada mês. Ao fim de um ano, isso pode significar uma economia relevante.

No caso de fechamento de parcerias, como a aquisição de uma tecnologia necessária às operações e de uso frequente, pode ser ainda mais fácil negociar valores.

Por exemplo, expondo o volume que a startup espera de aplicações do software de um parceiro ela pode conseguir reduzir valores mensais ou de onboarding pelo faturamento que ambos gerarão em conjunto no todo.

Controlar o estoque

Ter uma boa gestão de materiais e mercadorias em estoque ajuda o gestor a administrar bem o capital pela previsibilidade das compras.

Por exemplo, se um histórico de saídas e entradas do inventário é bem feito e seu relatório é utilizado para prever os próximos pedidos a fornecedores, a empresa sabe que terá mais essa despesa antes de seu registro.

Então, ao fazer a conta que mostramos para chegar ao capital líquido, consegue-se utilizar a previsão para tornar o cálculo ainda mais exato e ter controle absoluto sobre os recursos.

Manter um fluxo de caixa impecável

fluxo de caixa é uma ferramenta gerencial relativamente simples de montar e manter atualizada, baseada em quatro passos:

  • Categorizar receitas e despesas e suas fontes;
  • Encontrar o saldo presente para ser o ponto de partida dos registros;
  • Lançar as ocorrências em seus dias exatos de efetivação;
  • Calcular os saldos e avaliar outros resultados individualizados de entradas e saídas.

Depois, sendo necessário, ações mais sofisticadas e complexas podem ser adicionadas aos registros e às análises para a ferramenta gerar as respostas necessárias à gestão financeira. Mas para iniciar um controle absoluto e confiável apenas as etapas citadas já são suficientes e ajudam muito na administração do capital de giro de uma startup.

Projetar o fluxo de caixa

A projeção do fluxo é responsável por mostrar como estarão as finanças em curto e médio prazos.

As previsões são importantes para a avaliação da necessidade de capital, permitindo ao negócio saber se haverá dinheiro ou não e se alguma atitude será necessária para financiar as atividades.

Então, por exemplo, caso o fluxo projetado do mês seguinte demonstre que o saldo será negativo, o empreendedor pode agir. Assim, há tempo para avaliar as despesas e tentar enxugá-las, adiantar recebíveis ou cobrar inadimplentes e pesquisar o crédito mais barato para injetar dinheiro no caixa.

Como financiar capital de giro sem recorrer a empréstimos

Teoricamente, o empréstimo bancário é sim uma solução para financiar capital, mas é a pior delas e tem de ser vista como última possibilidade, pois endivida o negócio com um crédito muito caro e por algum tempo.

Adiantamento de recebíveis com clientes

Para startups B2B é possível adiantar recebimentos de clientes oferecendo pequenos descontos para que paguem antecipadamente em relação aos vencimentos. Essa é uma boa solução porque, além de ajudar a financiar capital no momento, gera um benefício financeiro aos clientes.

Vendo pelo lado financeiro do negócio, é uma maneira de financiar capital com dinheiro próprio, sem a necessidade de contrair dívidas em empréstimos bancários com altos juros.

Adiantamento de recebíveis com banco ou factoring

Uma outra solução para adiantar capital à startup com dinheiro próprio é acelerar os recebíveis com o banco emissor dos boletos ou com uma empresa de factoring. Porém, o preço cobrado por esse crédito pode ser maior que os descontos concedidos aos clientes nas antecipações.

Outra desvantagem que pode aparecer é o risco de inadimplência de algum cliente, o que o deixa com uma dívida atrelada a um terceiro interessado ou obriga o negócio a pagar os adiantamentos feitos junto às taxas.

Logo, para analisar a viabilidade da opção é preciso observar se não há histórico de inadimplência entre os clientes, o que minimiza as chances de ocorrerem transtornos.

Adiantamento de recebíveis de cartões de crédito

Seja no mercado B2B ou B2C — respectivamente e-commerce e SaaS, por exemplo —, quem faz cobranças via cartões de crédito pode recorrer à operadora para adiantar dinheiro proveniente de vendas já feitas, mas que compensarão mais à frente.

Essa forma de adiantamento tem como grande vantagem a impossibilidade de a inadimplência de clientes afetar o adiantamento, pois vendas já aprovadas sempre são pagas pelas operadoras. Havendo qualquer problema depois disso, como não pagamento da fatura pelo comprador, é problema do usuário com a operadora e seu banco emissor do cartão.

Esta é uma terceira maneira de conseguir capital utilizando-se de dinheiro próprio, apenas tendo uma taxa sobre o valor adiantado retida no momento do repasse.

Investidores

Também é possível recorrer a investidores para aumentar o capital de giro de uma startup.

Quando isso é feito os empreendedores devem ter em mente que terão um relacionamento com o investidor e deverão retornar o aporte com lucro para ele.

Ao buscar essa solução é preciso ainda saber que investidores não fazem empréstimos como bancos. Por isso, é preciso que sejam convencidos a investir com argumentos e números sólidos, apresentando um bom modelo de negócios e garantias de que o retorno será gerado em decorrência dos processos da empresa e de sua gestão.

Um grande diferencial de buscar capital com um investidor é a possibilidade de conseguir smartmoney, o dinheiro inteligente. Isso quer dizer contar com a experiência e o conhecimento do investidor no funcionamento do negócio para evitar erros e tomar decisões mais acertadas.

Financiamento coletivo

O crowdfunding está crescendo seu alcance constantemente e já ajudou várias startups.

Nesse modelo de financiamento, o negócio posta seu projeto em alguma plataforma e as pessoas que acreditam nele ou se identificam com ele e sua proposta de valor contribuem para o aporte.

Pelo montante levantado, geralmente, pagam-se taxas menores que nas demais formas de captação. Inclusive, em algumas plataformas paga-se apenas uma taxa administrativa.

Contudo, apesar de ser uma boa solução, é recomendada a quem tem tempo para esperar o dinheiro chegar. Em alguns casos, dependendo do projeto, a resposta pode ser mais rápida, mas a soma buscada dificilmente é alcançada em poucos dias, agilidade possível em outras soluções.

Por exemplo, se a startup tem como se manter sustentavelmente e precisa de capital para buscar um salto de crescimento dentro de algum prazo, pode apostar no financiamento coletivo.

Diferentemente, se há necessidade imediata de dinheiro para quitar dívidas com credores ou a folha de pagamentos é mais adequado buscar um adiantamento ou, em último caso, empréstimo bancário.

Agora, você sabe como calcular o capital de giro de uma startup e administrá-lo para manter a boa saúde financeira do negócio e suas operações.

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